Try to have done now
with the provocations and the state statistics,
the Sunday breakfasts and incinerators…
Leave this behind and have done
with party preparations and market analyses,
because it is late
it is much too late,
have done and come home
to the silence afterwards…
The silence
that lies like a baby bird between your hands,
your only friend.
ROLF IACOBSEN
Li com carinho, recentemente, um artigo de um amigo que muito estimo sobre os novos tempos que estamos vivendo. Este meu amigo é um homem dinâmico, criativo, muito ligado às coisas concretas da vida, aos resultados palpáveis. Tem um perfil de vencedor e, em consequência, professa grande admiração por quem vence na vida. No seu artigo, a estourar de dinamismo, mete num mesmo saco Miró, Gaudi, Bill Gates e Champalimaud, entre outros. Fala do espirito inventivo e arrojado comum a todos estes personagens e da necessidade (inegável) das pessoas se manterem permanentemente actualizadas sobre as novas tecnologias e “viver entusiàsticamente este período fantástico de mudança”, contribuindo assim para a criação de riqueza.
Creio conhecer relativamente bem este meu amigo e, embora enternecida com a sua esfusiante determinação e gosto pelo trabalho, fiquei a pensar mais uma vez se, a par de muitos outros males, a grande tragédia dos nossos novos tempos não será exactamente esta atitude stressada do indivíduo a correr atrás da máquina que inventou para o servir mas que lhe serve de pretexto para escapar de si mesmo e do que interiormente o possa perturbar. O indivíduo continuadamente em corrida, escravo da competição, profundamente empenhado em…vencer na vida!
Estou certa que o meu amigo, como homem inteligente e sensível que é, já se deve ter posto as seguintes questões: Que é vencer? Quem são realmente os vencedores? Aonde nos conduz a chamada vitória, quando ela representa apenas criação de riqueza material?
Justamente as novas tecnologias poem todos os dias debaixo dos nossos olhos o retrato inequívoco do que se passa neste mundo nosso e novo, um mundo indubitavelmente em profunda e inovadora transformação das suas estruturas operacionais visíveis mas onde o indivíduo vai sendo cada vez mais relegado para a posição de parafuso, manipulado por uma engrenagem que transcende a sua vontade e, portanto, o abafa. Torna-se mesmo chocante o isolamento e insignificância do homem numa sociedade onde os valores do espírito perderam força - e onde são mesmo frequentemente ridicularizados - onde cada um vale pela forma como o seu veículo físico corresponde a standards estereotipados de beleza e juventude e pelo poder material de que dispõe. É a sociedade do narcisismo e de todas as profanações, onde o sexo se tornou o substituto do Amor e dos seus mistérios. Sexo pelo sexo e no qual absurdamente esperamos encontrar os preciosos valores da intimidade e da compensação afectiva.
Sem tempo para um trabalho de fundo sobre os seus sentimentos e inclinações, o homem cala a voz da alma e vive pela rama porque não se pode dar ao luxo de sentir e assumir consequentemente o que se passa no seu interior. Assim, como apenas arranha a superfície das coisas, tudo é passageiro, pouco profundo na vida deste ser do nosso tempo, deste ser sem tempo cujo sorriso, esperança, força interior são alimentados por um cheque bancário. Precisa consumir sempre mais e crescer materialmente para sentir que venceu e que a sua vida tem sentido. Acaba, regra geral, só e frustrado, esquecido de como questionar o que o consome.
Creio que a grande questão de fundo é a forma como aplicamos a nossa criatividade. É que, ainda que a nível da persona tenhamos os traços mais arrojados e dinâmicos, se não efectuarmos pelo menos com algum sucesso a chamada viagem interior, se não mergulharmos com coragem e inusitada humildade nesse universo assombroso a que alguns chamam alma e onde vivem símbolos e lembranças que ainda não decifrámos, referências da experiência pessoal e transpessoal, não passaremos de cadáveres adiados, servindo com patética devoção a matéria do nosso veículo físico e os seus caprichos, os quais promovemos escandalosamente à categoria de “aquilo que somos”.
Começa por doer, é certo. Tentar compreender por é que nos sentimos sós se estamos rodeados de gente, telefonemas, entrevistas, negócios e, às vezes, da fragrância do sucesso, atinar com o motivo pelo qual despertamos continuadamente num estado de angústia se as coisas “até vão indo e a construção da riqueza se vai fazendo”, ouvir e ter a coragem de respeitar os apelos interiores tão frequentemente contrários às nossas conveniências e à estabilidade da nossa vidinha assente nos referenciais de sempre e que nos dão uma estagnada impressão de segurança, tudo isto representa uma espécie de parto da consciência, muitas vezes sangrento e demorado, o qual se faz acompanhar de dôr profunda. É, no entanto, a prova iniciática sine qua non, pela qual temos inevitavelmente que passar se quisermos ser uma humanidade liberta e em evolução.
A riqueza exterior falseia a realidade se não tiver como contrapartida uma vida interior assente numa postura humilde mas corajosa perante o sonho, o sagrado e o misterioso. Tal como as crises convivem com as grandes oportunidades, assim tambem o que nos destabiliza não é necessariamente nosso inimigo. Pelo contrário. São as vozes de papagaio - bajuladoras dos nossos egos, repetindo ad nauseam o coro de lisonjas que nos vai mantendo agradados - um dos principais obstáculos a que o espírito livre e inovador que habita cada ser humano possa manifestar-se e realmente …criar.
O meu amigo tem muita razão. É preciso viver consequentemente este tempo fabuloso onde grandes perspectivas se abrem no domínio das trecnologias.
Cuidemo-nos, porém, no salto!
Pouco preparado para o relativo poder que as grandes tecnologias lhe vêm aportando, o ser humano vira cada vez mais as costas a si próprio. Apoiado na arrogância da sua mente, crê que o caminho para a liberdade última a que tanto aspira é a prepotência, o controle. Tem vindo a perder noções de amor e de espírito e deixou que se esvaíssem nas brumas do esquecimento as grandes e arquetípicas verdades universais.
A ascensão da humanidade, o seu emergir do obscurantismo de ideais em que se encontra só poderá provavelmente fazer-se através de muita dor. Já é mais do que evidente que estamos entrando numa viragem dos tempos e que se impõe um salto mental universal e humanista.
Tudo é, porém, síncrono, tudo obedece a ciclos cósmicos, tudo é movimento neste Universo de intenção evolutiva inteligente. A mente humana precisa urgentemente de se abrir à mensagem cósmica de expansão mental, de universalidade, para ser capaz de destruir a cristalização da velha ordem, do paradigma obsoleto que a leva a servir o deus que melhor a compensa em termos materiais.
Talvez tenhamos que chegar ao limite da dor e da violência, ao equívoco máximo, para que, da noite escura do nosso sofrimento, aprendamos a abrir o coração, a confrontar os nossos medos e a entender que só o Amor salva. Que antes da máquina, do avanço das tecnologias, do negócio - que devemos sem dúvida cuidar pois são necessários ao bom funcionamento da nossa realidade tangível - tem de vir esse silêncio maior, esse bálsamo que advem de não ter horizontes, de evadir as regras estabelecidas e os premeditados jogos de conveniência e redescobrir o encantamento perante a magnífica simplicidade da Vida .
Nesse silêncio, em sintonia com a mente universal, talvez nos possamos acercar da paz e do sentido oculto da existência .
Para podermos, na hora inescapável, regressar serenamente ao silêncio original.
MARIANA INVERNO, Notas Diárias à Sombra dos Tempos
Quadro acima: SALVADOR DALI
Quadro à direita: SONIA MELLO